Durante anos, a explicação mais cômoda para a baixa digitalização empresarial paraguaia foi a infraestrutura: não havia conexão suficiente, o sinal não chegava, a internet era cara e lenta. Essa explicação fazia sentido uma década atrás. Com os dados atuais, não faz mais.
A infraestrutura que o país já construiu
Segundo o Índice Latino-Americano de Inteligência Artificial (ILIA 2025), o Paraguai registra uma cobertura móvel que alcança 99,6% da população. A isso se soma uma infraestrutura nacional que incorpora mais de 20.000 quilômetros de fibra óptica, com uma arquitetura desenhada para garantir altos níveis de disponibilidade e redundância.
O ecossistema corporativo acompanhou esse crescimento: a demanda por serviços de nuvem e por data centers vem se expandindo de forma sustentada, impulsionada por organizações que incorporam ferramentas digitais para gerir informação, fazer backup de dados e sustentar operações críticas. Roberto Laratro, diretor-geral da Tigo Paraguai, descreveu a conectividade como um ativo estratégico do país, apontando que a infraestrutura digital já funciona como uma plataforma sobre a qual operam praticamente todas as indústrias.
A Autoestrada Vazia
Aqui aparece o contraste. O Paraguai construiu a autoestrada: o sinal chega a quase toda a população, a fibra percorre o país, os data centers estão operando e o sistema de pagamentos processa dezenas de milhões de transações por mês. E, mesmo assim, segundo o estudo Chequeo Digital do Ministério da Indústria e Comércio, 78,7% das microempresas paraguaias ainda não têm site próprio.
A isso chamamos de Autoestrada Vazia: uma infraestrutura de primeira linha, construída com investimento público e privado ao longo de anos, que a maioria dos negócios do país não está usando para a única coisa que realmente lhes importaria, que é vender.
Por que isso muda a conversa
Enquanto o problema era a infraestrutura, a responsabilidade estava fora do negócio: não dependia de você a fibra chegar à sua cidade ou o sinal alcançar a sua região. Hoje essa parte está resolvida para a enorme maioria da população. O que sobra é uma decisão que depende, sim, de cada negócio.
E isso se conecta com algo que já documentamos: o problema também não é o consumidor, que já compra, busca e paga online. Nem o Estado, que vem se digitalizando mais rápido do que sua fama sugere, como contamos em A Corrida ao Contrário. Quando se descartam a infraestrutura, o consumidor e o Estado, a lista de explicações possíveis fica bem curta: sobram a falta de conhecimento técnico e a percepção de que o investimento inicial é alto, as duas barreiras que analisamos em nosso artigo sobre por que os negócios não se digitalizam.
Uma ressalva importante
O fato de a cobertura móvel alcançar quase toda a população não significa que todos se conectem nas mesmas condições. Já escrevemos sobre essa diferença em A Internet Sem Teto: nas zonas rurais, apenas 40,6% dos lares têm conexão em casa, contra 83,5% nas zonas urbanas. O sinal chega, mas a forma de acessar não é a mesma em todo lugar.
Por isso, para um negócio do interior, a leitura prática não muda: existe autoestrada, mas seu cliente provavelmente vai percorrê-la de um celular com dados móveis, não de uma conexão fixa. Projetar pensando nisso faz parte de aproveitar bem a infraestrutura disponível.
Como pensamos isso na KapeDev
A infraestrutura já não é a desculpa, e isso é uma boa notícia. Significa que o que separa um negócio de estar online não é uma obra pública pendente nem um investimento de bilhões, e sim uma decisão que dá para tomar esta semana.
Perguntas frequentes
Quão boa é a cobertura de internet no Paraguai?
Segundo o ILIA 2025, a cobertura móvel alcança 99,6% da população, com uma infraestrutura nacional que supera os 20.000 quilômetros de fibra óptica.
Se a infraestrutura existe, por que tão poucas empresas têm site?
As barreiras principais já não são de conectividade, e sim de conhecimento técnico e de percepção de custo: muitos donos de negócio superestimam o quanto custa e subestimam o que dá para resolver em poucas semanas.
A boa cobertura significa que todos se conectam igual?
Não. A cobertura de sinal é quase universal, mas a conexão domiciliar varia muito entre zonas urbanas e rurais, o que afeta como cada cliente navega.
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